O AMOR DIGITAL QUE PODE CUSTAR A SANIDADE
Relacionamentos afetivos com inteligência artificial deixaram de ser ficção científica para se tornarem uma realidade crescente — e inquietante. Ao mesmo tempo em que alguns usuários relatam conforto emocional, outros mergulham em dependência psicológica, confusão afetiva e até delírios envolvendo chatbots. A questão central não é mais se alguém pode amar uma IA, mas quanto isso altera a percepção do real.
Pesquisas recentes revelam que a motivação predominante por trás desses vínculos é a sensação de segurança emocional. Diferente de relações humanas, repletas de conflitos, rejeições e imprevisibilidade, a IA opera sob o mecanismo da validação incondicional.
Ela escuta sem criticar. Responde no ritmo do usuário. Se adapta às suas expectativas. E oferece algo extremamente sedutor para quem está fragilizado: previsibilidade emocional.
Esse terreno fértil explica por que adultos jovens — especialmente os mais solitários — se tornam emocionalmente dependentes de bots como Replika, Character AI e derivados.
Especialistas em saúde mental já registram casos de usuários que desenvolveram o que alguns chamam de “psicose da IA” — uma perda de contato com a realidade ao atribuir consciência, intenções ou sentimentos genuínos ao chatbot.
Pacientes com histórico de esquizofrenia ou transtornos psicóticos são especialmente vulneráveis. Chatbots programados para se adaptar ao desejo do usuário, como no caso do indiano que invadiu o Palácio de Windsor, podem reforçar delírios ao invés de freá-los, criando ciclos perigosos.
Mesmo pessoas sem diagnóstico prévio podem viver um estado dissociativo quando o chatbot passa a ser percebido como mais “real” do que o próprio ambiente ao redor.
A história de Travis, que se “casou” digitalmente com seu avatar Lily Rose, e de Faith, apaixonada pelo personagem Galaxy, revela uma dor moderna: o luto por um algoritmo.
Quando o Replika alterou seu modelo, removendo respostas afetivas, milhares de usuários relataram sensação de abandono, tristeza profunda e perda — as mesmas reações observadas em rupturas emocionais reais.
Para muitos, a IA tinha se tornado um porto seguro após traumas, crises conjugais ou solidão. Perder esse avatar foi, psicologicamente, como perder alguém.
O caso de Kano, de 32 anos, levou o fenômeno a outro patamar. Criando seu próprio “noivo” digital, Klaus, com base no ChatGPT, ela celebrou uma cerimônia completa com testemunhas, alianças e até lua de mel virtual.
O mais surpreendente não é a cerimônia — mas o fato de que a relação a ajudou a lidar com expectativas familiares e dor emocional, mesmo sabendo racionalmente que Klaus não existia de verdade.
Essa ambiguidade mostra o quão sofisticada a mente humana é ao criar vínculos, e como a IA já tem poder para ocupar espaços afetivos antes exclusivos de pessoas reais.
De um lado, especialistas como Kim Malfacini (OpenAI) alertam para riscos sérios:
Substituição de relações reais
Dependência emocional
Dificuldade de desenvolver habilidades sociais
Fragilização da saúde mental
De outro, criadores de apps como Evgenia Kuida (Replika) normalizam o fenômeno como “natural”, argumentando que as pessoas buscam conexão — e que não cabe à empresa dizer até onde isso vai.
Essa divergência cria um cenário ético complexo: a indústria cresce mais rápido do que a capacidade da sociedade de compreender seus impactos.
Quanto mais a IA se adapta ao usuário, menos ele se adapta ao mundo real.
A longo prazo, pesquisas indicam:
aumento de ansiedade social
dificuldade de iniciar relacionamentos reais
empobrecimento da empatia
expectativas irreais sobre parceiros humanos
isolamento progressivo
A IA, por não apresentar conflitos ou frustrações reais, não ensina resiliência emocional, crucial para relacionamentos saudáveis.
Nem tudo é negativo. Em alguns contextos, a IA:
reduz a solidão
auxilia pessoas traumatizadas
melhora o humor
estimula autorreflexão
oferece companhia não hostil
Mas somente quando usada como complemento — nunca como substituto — para relações humanas.
A fronteira entre companhia e psicose se estreita à medida que a IA se torna mais natural, fluida e responsiva.
A chave, segundo psicólogos e cientistas, está em manter:
consciência de que o vínculo é artificial
presença ativa no mundo real
relacionamentos humanos preservados
limites de uso bem definidos
A IA pode ser um apoio emocional. Mas quando passa a ocupar o lugar central da vida afetiva, deixa de ser ferramenta — e se transforma em risco.
No próximo artigo, vamos revelar como a IA está redefinindo não só os relacionamentos amorosos, mas também a sexualidade — e os novos riscos que isso apresenta para jovens e adultos.